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Campeão Farroupilha de 1935

fevereiro 2, 2008

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No ano de 1935, o Rio Grande do Sul se preparava para o centenário da Guerra dos Farrapos. Porto Alegre se embelezava para as comemorações do fato mais importante da história do Rio Grande. Em Setembro, na Semana Farroupilha, chegou o presidente da República, Getúlio Vargas, para prestigiar as comemorações.

Então, em homenagem ao centenário da Guerra Farroupilha, o Campeonato de Porto Alegre daquele ano foi denominado Campeonato Farroupilha. E para aquele Campeonato, já havia um favorito. E era o Internacional, que fora campeão da cidade e campeão estadual no ano anterior.

O primeiro Gre-Nal a ser disputado no Campeonato Farroupilha, foi no dia 28 de julho. Assim como era em relação ao Campeonato, o Inter também era o favorito para aquele jogo. O Grêmio estava enfraquecido com a saída do seu grande craque, Luiz Carvalho, que fora para o Vasco da Gama. No entanto, o caso mais grave era do goleiro Eurico Lara. Dois meses antes, numa partida contra o Santos, Lara se chocara com o atacante Mário Seixas e sofrera uma concussão no peito. Então, seu problema foi descoberto. Lara era cardíaco. Recebeu recomendação médica para não jogar mais. Apesar disso, Lara continuou jogando, e estava presente naquele Gre-Nal de 28 de julho, nos Eucaliptos.

Como sempre, Lara foi um dos destaques. Mas o protagonista daquela partida seria o ponta-esquerda Castilho, autor do célebre Gol do Avião. O motivo dessa denominação foi que durante o jogo, no momento que Castilho estava com a bola em frente à área colorada, um avião apareceu sobre o campo dos Eucaliptos e passou a fazer piruetas, o que levou o goleiro Penha e os zagueiros Natal e Risada olharem para cima surpresos e temerosos. Por outro lado, Castilho não deu bola para o avião e seguiu em frente e mandou a bola para o gol, pegando a defesa colorada de surpresa. Era o gol de empate do Grêmio, e o jogo terminou 1×1. Estranhamente após o jogo, Castilho desapareceu. Havia boatos de que os colorados, furiosos com tal gol, raptaram-no e que ele estava escondido numa casa no Belém Novo. Se isso é verdade ou não, ninguém sabe, mas Castilho voltaria em 1936, vestindo a camisa vermelha.

Já em meados de setembro, Castilho já estava sumido. E o Inter estava a um passo de conquistar o título Farroupilha. Além do favoritismo, o Grêmio ainda perdera para o Força Luz por 2×0, e esse resultado daria a vantagem de um ponto para a equipe colorada, o que daria também a vantagem do empate, para o Gre-Nal que decidiria o campeão do Campeonato Farroupilha. Para piorar a situação gremista, a doença de Lara piorara e os médicos o proibiram de jogar.

A confiança dos colorados era grande. Tão grande, que fez com que um torcedor colorado caçar 11 cachorros pelas ruas de Porto Alegre, e os pintasse de vermelho. Em seguida, o tal colorado os prendeu na caminhonete, deixando-os amontoados. Conduziu a sua caminhonete com os cachorros para o Fortim da Baixada. Deixou o veículo em frente ao local e foi para as arquibancadas. Seu plano era, com jogo terminado e com o Inter comemorando o título, soltar a cachorrada em pleno campo do rival para fazer farra.

Enquanto isso, Lara comunicava aos dirigentes e aos jogadores que jogaria de qualquer jeito, e que ninguém o impediria.

No Fortim da Baixada, dois terços da torcida era colorada, que fazia a festa, como se fosse um ensaio para o título iminente. A torcida gremista, por sua vez, vibrou quando viu Eurico Lara entrando no gramado.

E o ídolo gremista não decepcionou. Lara fez boas defesas. O Inter dominou o primeiro tempo. E a zaga tricolor formada por Dário e Luiz Luz trabalhou bastante e segurou o ímpeto colorado em fazer o gol. O primeiro tempo terminaria 0x0.

O problema era que empate daria o título ao Internacional. A torcida colorada passou o intervalo comemorando. E a parte vermelha do estádio teria mais um motivo para comemorar, para a aflição do lado azul. Lara não suportou as dores no peito, e com isso, não pôde voltar para o segundo tempo. Chico entraria no seu lugar.

Os jogadores do Internacional se estimularam ao ver que Lara não estava em campo e se atiraram à frente. Dário e Luiz Luz tiveram mais trabalho para impedir o gol colorado. Enquanto isso, na frente, os companheiros não encontravam um caminho que levasse à goleira de Penha.

Na época, cada tempo tinha 40 minutos. E aos 37 minutos do segundo tempo, o jogo ainda estava 0x0. Então, o tal torcedor colorado saiu das arquibancadas e foi até a caminhonete pegar os cachorros. Afinal, faltava pouco para a festa do título.

Enquanto isso, o Grêmio tinha uma falta na intermediária do Inter, muito próximo ao meio-círculo. Os torcedores colorados prosseguiam com a festa. No meio dela, Foguinho pega a bola com as mãos e se aproxima ao companheiro Mascarenhas cochichou em seu ouvido:

– Levanta no meio da área que o Risada vai tirar e eu vou pegar o rebote.

Foguinho deu a bola para o companheiro e foi à área colorada. Mascarenhas fez o combinado, levantou a bola para área adversária e Risada pulou e cabeceou a bola para frente. Mas antes mesmo da bola tocar no chão do meio-círculo da área, Foguinho chuta de pé esquerdo. A bola foi direto para as redes do goleiro Penha.

Os jogadores do Internacional não acreditaram no que estava ocorrendo. E tontos, dirigiram-se para o meio-de-campo para reiniciarem a partida. O juiz Francisco Azevedo apitou e a bola rolou. Mas Foguinho deu o bote e tomou a bola dos colorados. O jogador gremista seguia sem parar, e os colorados, desesperados, corriam atrás. Penha, percebendo a iminência do perigo, saiu para interceptar a bola de Foguinho, que por sua vez, passou a bola para Laci. O ponta só precisou empurrar a bola para a rede e sacramentar a vitória de 2×0 e o heróico e histórico título.

Junto com a torcida gremista, estava Lara, que conseguia unir forças para comemorar junto com os torcedores.

Já o tal colorado, tirou os cachorros da caminhonete. Houve o foguetório do primeiro gol, que assustou os cachorros, mas foram contidos com dificuldades pelo colorado. Entretanto, um minuto depois, estourou o segundo foguetório gremista, por conta do segundo gol. Então a matilha, já estressada por ter ficado presa na caminhonete, ficou enlouquecida e avançou no colorado, que foi parar no hospital. Mais tarde, o tal colorado não acreditara no que ocorrera, ao saber do resultado do jogo.

A festa continuou noite adentro na Baixada. Emocionado, o técnico Sardinha I sugeriu que o título do Centenário Farroupilha fosse comemorado por mais um século. A idéia foi aceita, e desde 1935, a cada 22 de setembro, o Grêmio realiza o Jantar Farroupilha para comemorar a grande conquista.

 

foguinho.jpg
Foguinho
Time campeão: Lara (Chico); Dário e Luiz Luz; Jorge, Mascaranhas e Sardinha II; Laci, Artigas, Russinho, Foguinho e Divino.

 

A morte de Lara

Lara não pôde participar do segundo Jantar Farroupilha. Estava muito feliz pelo título do Grêmio, mas ao mesmo tempo sentia fortes dores no peito. Então foi levado ao Hospital Beneficência Portuguesa. Infelizmente, um pouco mais de um mês depois, mais precisamente no dia 6 de novembro de 1935, o coração do lendário goleiro parou de bater. Porto Alegre chorou, e a comoção era presente tanto nos gremistas, quanto nos colorados. A capital parou para ver o seu enterro.

Sem Lara, o Grêmio perdeu o Campeonato Estadual daquele ano, para o 9º Regimento de Pelotas, que passou a ser chamar Farroupilha, exatamente por ganhar o título no centenário da Guerra Farroupilha.

Mas Lara, o maior goleiro da história do Grêmio, se eternizou, e através de seus feitos, tornou-se uma lenda. Mais tarde, Lara seria homenageado pelo hino do Grêmio, composto do Lupicínio Rodrigues:

 

“Lara o craque imortal

Soube o teu nome elevar

Hoje com o mesmo ideal

Nós saberemos te honrar”

lara-o-imortal-1.jpg

Eurico Lara

 

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